Essa é mais uma das minha estórias. Talvez eu não a termine. Só tive vontade de escrever. Na verdade é uma releitura de um dos meu livros favoritos.
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Cap.1- Inglaterra, 1999
Basil terminava de limpar os pinceis. Henry e Nina observavam atentamente a pintura colocada na mesa, em frente aos dois. Seus olhos estavam fixos no quadro, como se quisessem absorver todas as informações de uma vez só
-Bay, ficou lindo.....-disse Nina, sem desgrudar os olhos dele.
-Cada dia que passa, seu talento só aumenta-completou Henry- estou realmente impressionado
Basil apenas deu um sorriso tímido como resposta.
- É apenas um “rascunho”. Deve fazer o original em breve- respondeu o garoto
-Sendo rascunho ou não, você tem que exibi-lo na feira de mês que vem. Se virem isso, sua entrada na faculdade está mais do que garantida.
- Eu não pretendo exibi-lo em lugar nenhum -respondeu Basil
- O quê?!- disse Nina, sem esconder a revolta- Bay, esse deve ser seu melhor trabalho! Tem que exibi-lo!!! Não pode esconder uma obra como essa!!
- Não posso fazer isso.
- Basil- continuou Henry- sei que pode estar encabulado ou nervoso, mas tem que exibir esse quadro. Por que não poderia fazê-lo?
- Prof. Henry....Nina....com todo respeito, não sei se iriam entender meus motivos- deu uma pausa antes de continuar- é que eu.....coloquei muito de mim nesse retrato.
- Acho que eu realmente não entendi- disse Nina, prendendo o riso – o modelo do retrato não tem nada a ver com você.
E realmente não tinha. O jovem do retrato tinha os cabelos loiros bem alinhados, e olhos de um azul tão vivo que chegava a cegar. Basil tinha os cabelos negros, que estavam a maior parte do tempo despenteados, e seus olhos eram de um castanho pálido comum. O Jovem possuía uma expressão serena, enquanto Basil passava a maior parte do tempo com rugas de concentração na testa . Mas a diferença mais marcante entre os dois estava no fato de que o modelo do retrato era uma das criaturas mais belas que já pisaram na face da terra, enquanto Basil possuía a aparência mais ordinária de todas. Comparar os dois era o mesmo que comparar um pavão a um corvo.
-Nina, não estou dizendo que sou parecido com o rapaz do retrato. Estou dizendo que ao pintá-lo, me expus de mais. Acabei revelando muito da minha alma.
- Não vejo problema nenhum nisso, mas se assim deseja, não vou te forçar- disse Henry- mas diga: quando vamos conhecer o modelo do retrato?
- Achei que já conhecesse- disse Basil surpreso- ele foi apresentado aos outros professores no inicio do mês.
- Sinceramente, tenho cara de quem a essas reuniões durante as férias? Fico o mais longe possível que posso dos outros professores durante o verão.
- Nossa, sei que não é muito fã de professores em geral, apesar de ser um, mas por essa eu não esperava- disse Nina
- Já convivemos juntos cerca de nove meses- respondeu Henry- para quê aumentar a convivência ?
Nina e Basil riram, enquanto este guardava o retrato na pasta junto de seus outros trabalhos.
-E então Bay- disse Nina- quando vamos conhecer seu adorado?
- Amanhã, com o inicio do ano letivo. Ele chega hoje a noite.
- Ai, que emoção!- zombou Nina- conhecer o famoso Dorian Gray!!!
- Bem, garotos, vou voltar para a minha base- disse Henry- até amanhã
- Até amanhã
Henry se levantou, pegou a bengala e saiu do quarto, fechando a porta ao sair.
Basil e Nina ficaram mais um tempo em silencio, antes dela recomeçar a falar
- Bay, se não quer expor o quadro, por que o mostrou para mim e para o Prof. Henry?
- Sempre mostro meus trabalhos para ele- disse Basil- é uma forma de agradecê-lo a toda a atenção que dedicou aos meus desenhos. E você....
-... Eu o quê?- perguntou Nina
-...você sempre foi capaz de ler minha alma, por mais que eu tentasse esconde-la. – completou Basil
Nina se surpreendeu com a resposta
-Puxa, achei que ia dizer que é porque somos amigos há muito tempo ou porque sou curiosa. Assim eu fico encabulada -seu rosto começou a corar furiosamente.
-Mas é verdade- disse o rapaz- de todas as pessoas no mundo, você é a única que consegue ver o interior da minha alma.
- Dorian Gray não consegue?- perguntou Nina cinicamente
- Não, não consegue- disse Basil rindo- está com ciúmes?
-Bay, até hoje você não me contou como o conheceu- disse Nina, mudando rapidamente de assunto- se não fosse por esse retrato, nem saberia seu nome. Para quê tanto mistério?
- Algumas coisas perdem a graça quando reveladas. Mas se quer tanto saber, eu te conto.
- Sim, eu quero saber !!!- disse Nina, mal contendo a curiosidade.
- Foi no inicio do verão- começou Basil- fui passar as férias na cidade da minha tia. Ela me apresentou ao Dorian. É filho de um casal amigo de titia. Morreram há alguns anos. Ele foi criado por parentes. Mas enfim, nós conhecemos e nos tornamos amigos facilmente . Seus parente já planejavam mandá-lo para cá, logo me ofereci para ajudá-lo enquanto se adapta a nova casa. Mas acho que ele fará amigos facilmente....é uma pessoa maravilhosa.....
- Se não te conhecesse Bay, diria que está apaixonado....- disse Nina
- Você está tão engraçadinha hoje- disse Basil sarcasticamente- mas admito que me assusto com o modo que ele influencia- e pousou o rosto nas mãos, voltando a tão conhecida expressão de reflexão.
De repente o relógio em cima da mesinha de cabeceira tocou.
- Nossa, já são sete horas!!!- disse Nina- anda, vamos logo para o refeitório, se não ficamos sem jantar.
A jovem se levantou e foi até a porta . Basil foi atrás dela, apagando a luz antes de fechar a porta do quarto.